Na esquina da Rua do Orfanato com a Domingos de Morais, em São Paulo, o movimento desta quinta-feira parecia outro em relação às semanas anteriores. Dona Lúcia, que vende marmita há nove anos no mesmo ponto, contou que o estoque de arroz que costumava durar dois dias passou a acabar em um só desde o feriado de Corpus Christi. «O frio de maio afastou o pessoal do escritório. Agora o sol ajuda», disse, enquanto atendia um cliente de crachá que pediu duas porções para levar.
O relato não é isolado. Em levantamento informal feito pelo Select Brasil com 24 comerciantes de rua e 11 lojistas de bairro em São Paulo, Recife e Belo Horizonte, 28 disseram notar aumento de fluxo na primeira quinzena de junho. Ainda não é um boom — muitos compararam o volume ao de março, não ao de 2019 —, mas a direção mudou depois de um maio em que chuvas e temperaturas abaixo da média esvaziaram calçadas.
Horários que voltaram a pesar
Associações de ambulantes da zona leste paulista apontam concentração de vendas entre 11h30 e 14h e, novamente, das 17h às 19h. É o perfil clássico do trabalhador que almoça fora e compra algo rápido no caminho de volta. Durante o frio intenso, o intervalo do meio-dia encolheu: menos gente saía do escritório, mais gente pedia delivery. Com o aquecimento, o hábito de caminhar reapareceu.
Em Recife, na região do Derby, quiosques de suco e lanches relatam fila curta mas constante no horário de almoço. «Antes era uma pessoa a cada dez minutos. Agora são três ou quatro», resumiu Edson Pereira, que trabalha no local há seis anos. Em Belo Horizonte, na Savassi, lojistas de conveniência dizem que o ticket médio não subiu, mas a frequência sim.
O que ainda trava
Nem todo mundo sente a mesma melhora. Em regiões centrais com problemas de segurança, comerciantes legalizados dizem que o fluxo melhorou pouco após o escurecer. Em bairros periféricos, a questão do crédito pesa: dois ambulantes entrevistados disseram ter parcelas de empréstimo pessoal que consomem boa parte do lucro semanal.
O comércio de bairro é termômetro rápido: quando a calçada enche, alguma confiança voltou. Quando esvazia, a cautela ainda manda.
Leitura do Select
Os dados oficiais de varejo demoram semanas para sair. Por isso olhamos para o chão: marmita que acaba mais cedo, loja que repõe estoque duas vezes na semana, ambulante que não precisa guardar mercadoria no fim do dia. São sinais pequenos, mas convergentes em três capitais distintas.
Para as próximas semanas, vamos observar se o movimento se espalha para sábados e domingos — quando famílias costumam puxar o consumo de bairro — e se o centro expandido mantém o ritmo após as férias escolares de julho.