Na loja de eletrodomésticos da Avenida Batel, em Curitiba, o gerente notou mudança de conversa antes de notar mudança de caixa. «Em abril, o cliente entrava perguntando se ia subir de novo. Em junho, pergunta se já baixou o suficiente para esperar mais um pouco ou comprar agora», contou Ricardo Motta, 12 anos no varejo paranaense.
O Select Brasil ouviu 16 lojistas de eletro, móveis e turismo em Curitiba e Porto Alegre. A maioria descreve um humor menos tenso que no primeiro trimestre, quando o dólar alto e o juro elevado travavam conversas sobre compra planejada. Ainda assim, poucos relatam fila no caixa: o consumidor voltou a olhar vitrine, mas fecha com cautela.
O que o alívio cambial muda na prática
Produtos importados ou com componente dolarizado — smartphones, TVs, algumas linhas de climatização — voltaram a entrar no radar. Agências de viagem em Porto Alegre dizem que orçamentos para o segundo semestre cresceram, especialmente para destinos no Mercosul. «Ninguém está comprando passagem de última hora para Miami, mas a família voltou a pedir cotação», resumiu uma agente do bairro Moinhos de Vento.
O crédito continua sendo filtro. Lojistas relatam que parcelas longas só fecham com entrada maior ou taxa promocional da financeira. O consumidor compara três lojas antes de assinar contrato — comportamento que já existia, mas que se intensificou nos últimos dois anos.
Região a região dentro do Sul
Em Curitiba, o sentimento melhor entre classes médias com emprego formal estável. Na periferia de Porto Alegre, lojistas de bairro dizem que o alívio cambial quase não aparece na conversa: o tema é preço do alimento e conta de luz.
Sentimento não é índice. É o que a pessoa diz quando abre a carteira — ou quando decide não abrir.
Próximos passos na cobertura
Vamos acompanhar se o humor mais leve se converte em vendas no Dia dos Namorados e no período pré-férias de julho. Também vamos cruzar relatos com dados de inadimplência no crediário, que lojistas citam como freio persistente.